Status: em um relacionamento sério com o Carnaval.

Começou tão cedo que posso jurar que tinha Globeleza sambando na cara dos intelectuais antes até do jingle bells. Nem mesmo os panetones saíram da mesa e Felinto, Pedro Salgado, Guilherme e Fenelon, invadiram, com seus blocos saudosos, a rotina líquida e endividada dos recifenses.

Ah, o Carnaval, este senhor com mais vícios que virtudes que passeia sorrateiro pelos corações em chamas. Ele, seu niilismo blasé e nossa carência histórica, de mãos dadas, no bloco Quem vê Carnaval, não vê Coração.

Planejava passar meus dias de momo com pijamas, no lugar de fantasias, trocar as troças por livros e purpurinas por filmes de David Lynch, mas eis que o Galo subiu no poleiro e ouvi o som dos clarins de momo que entra na cabeça, depois toma o corpo e acaba no pé. É a embriaguez do frevo que transforma o ponto final em vírgula e tudo o que vez depois em reticências.

E assim como o eterno retorno de Nietzsche, veremos a repetição dos clássicos da folia: o Cravo vai brigar com a Rosa só para passar o Carnaval solteiro e o repórter da televisão vai falar da “irreverência do folião pernambucano” como se a frase, necessariamente, precisasse ser oposta, em progressão geométrica, `a originalidade da fantasia.  Veremos plumas, paetês, máscaras de políticos, bonecos gigantes, assim como gente de abadá que, por descuido ou ironia, perdeu o vôo para Salvador.

Depois, cansados de sol, suor e cerveja, nos contentaremos com aqueles dias chatos entre a quarta-feira de cinzas e o ano novo. É de fazer chorar.

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