Depois

O depois não existe.

Deveria, porque a ideia é até boa.

Mas, assim como uma durex que jamais perde a ponta, o depois simplesmente não existe.

É um conceito. Uma teoria. Um plano que pode dar certo em 3% dos casos e errado nos outros 43.251,88 %.

O que existe é um agora seguido de outro agora. Só isso mesmo, portanto.

 

Expectativa

A culpa não é do glúten, não é da lactose, não é do bacon.

O que fode o ser humano é a expectativa.

Pode comer fritura se diminuir as doses diárias de ansiedade. Porque expectativa, minha cara colega de trabalho, é a ansiedade prematura.

Neurose? Visite o decorado. Temos amostra grátis de vários distúrbios.

Em momentos aleatórios imagino que se a vida fosse um livro, ia ser mais fácil. Porque a orelha do livro, aquele spoil resumido do que vai acontecer, corta a ansiedade pela raiz.
Estou lendo O Velho e o Mar de Hemingway e, pela orelha, já sei que vai dar merda. O velho não vai conseguir levar aquele peixe até a terra nem fudendo, então isso tem me poupado horas de expectativa. Agora imagina se a vida vem com orelha? Um prefácio, de nada, pra ajudar na navegação dos acontecimentos. Ou um waze, que seja. Uma Siri que praticasse a sinceridade.
Mas ficar no escuro, brincando de manequim challange sem saber o que vai acontecer no final da temporada do seu emprego ou do seu crush é uma sacanagem sem precedentes. Uma vida de inconsistências, onde o dia de hoje passa em modo avião porque você está preocupado demais com o dia de amanhã.
Meu propósito atual é ter coragem de olhar na cara da expectativa e dizer:
- Miga, segura aqui minha bebida que eu volto rapidinho.
Quando ela desse conta de que eu fugi de Alcatraz, eu já estaria fazendo yoga no Nepal. E comendo bacon.

Entranhou

2016 tá tipo quando você faz o almoço; passa três dias lavando a mão com phebo, mas a mão ainda fica com cheiro alho.

Entranhou mano.
Porque, olha só, cadê o pessoal do textão gentileza e amor para 2017? Tá tudo aí problematizando a timeline alheia.
Tá mais difícil de sair de 2016 do que da ilha de Lost.
Passei cinco dias pra conseguir ler todas as minhas mensagens de aniversário no Facebook, no limbo Natal/Ano Novo, porque entre um parabéns e um feliz aniversário tinha mais gentileza na timeline do que nutella no avião de Temer. Era tanto amor que tinha glitter até nos posts patrocinados.
Mas aí o pessoal foi tudo pra praia, cheirou protetor solar, pulou as 7 ondas de costas e 2017 chegou tipo o disco da Xuxa tocando ao contrário.
Também, era tanta gente em Noronha que aquilo virou um piscinão de ramos gourmet. Quem foi pra Carneiros enfrentou fila até pra ser queimado por água viva.
Aí geral voltou revoltado querendo descontar na rede social porque nada como jogar frustração no ventilador climatizado do camarote Chandon.
Portanto, 2016 não tem culpa se o pessoal da arquibancada não sabe brincar e quer trazer a bola de frescobol pra jogar volley quando a gente sabe, muito bem, que 2017 é um ano tênis de mesa.

Meus sinceros desejos para 2017:
Ler mais Saramago, menos Mark Zuckerberg
Assistir mais Almodóvar, menos William Bonner
Comprar mais quadros, menos vestidos
Ter mais livros, menos grupos de what’sapp

 

Quando seu filho passa o fim de semana com os avós

WhatsApp – parte 1 (com Victor)

eu – Tais por onde?
Victor – Praia
eu – Passou protetor? Lembra de beber água.
Victor – A gente trouxe cerveja, serve?

Whatsapp – parte 2 (com minha mãe)

eu – Mãe, Victor foi pra praia com papai e não levaram água????
Mamãe – Menina, cerveja é feita de água.

Como proceder?

Brincando de lógica

Premissa 1 – Alguns homens violentam mulheres
Premissa 2 – Algumas mulheres são violentadas por homens.
Logo, todas as mulheres devem beber menos.

Premissa 1 – Alguns homens batem em mulheres.
Premissa 2 – Algumas mulheres apanham de homens.
Logo, todas as mulheres devem se expor menos nas redes sociais.

Premissa 1 – Alguns homens matam suas esposas ou namoradas.
Premissa 2 – Algumas mulheres morrem assassinadas por seus maridos ou namorados.
Logo, todas as mulheres devem andar na companhia de pessoas de confiança (que não sejam, pelo que tudo indica, seus maridos ou namorados).

Premissa 1 – Todas as conclusões acima são machistas e culpam a vítima.
Premissa 2 – O Governador de Pernambuco endossa as conclusões acima.
Logo, ____________________________________

*Essa crônica foi inspirada na declaração  do Governador de Pernambuco, Paulo Câmara, sobre a violência e o aumento dos casos de estupro. Paulo reforça as orientações da PM que pede cautela as mulheres, sugere que elas bebam menos e evitem exposição em redes sociais.