Primavera – versão TPM

Hoje é a avant premiere da temporada “bem vinda primavera” em uma timeline perto de você. Redes sociais com mais flores que dinheiro nas malas do ex-ministro.

Recife, que por sua vez só tem verão, ama a primavera mas não é correspondida.

Tá, temos umas papoulas, uns ipês amarelos e bougainvilles, mas olha só, se você tirar a cara do celular e reparar direitinho, elas estão lá o ano inteiro.

Essa estação marota só vem pra constranger nossa auto estima e provar que além de não ter calçadas andáveis e ruas sem buraco, também não temos direito a míseras rosas, gérberas nem margaridas brotando livremente em jardins públicos. Provavelmente porque nem temos jardins públicos.

Na verdade eu nem queria flor, queria mesmo é que ninguém estacionasse na frente do meu portão (mesmo que seja rapidinho só pra pegar junior na escola), queria ficar na fila do supermercado sem ninguém furar a fila (porque a tia estava “guardando” o lugar) e queira muito que a GVT lá de casa entregasse a internet que ela promete no panfleto do sinal. Se no fim do dia ainda tiver uns girassóis, a gente agradece a preferência.

Minha homenagem neste dia, que marca o início do equinócio de primavera, vai para nosso queridíssimo Governador Paulo Câmara e seus 3,7 mil assassinatos em Pernambuco, só este ano. Pra comemorar, sobe som de Titãs:

As flores tem cheiro de morte

A dor vai fechar esses cortes
Flores
Flores
As flores de plástico não morrem”

*Sim, estou na tpm.

 

Brincando de lógica

Premissa 1 – Alguns homens violentam mulheres
Premissa 2 – Algumas mulheres são violentadas por homens.
Logo, todas as mulheres devem beber menos.

Premissa 1 – Alguns homens batem em mulheres.
Premissa 2 – Algumas mulheres apanham de homens.
Logo, todas as mulheres devem se expor menos nas redes sociais.

Premissa 1 – Alguns homens matam suas esposas ou namoradas.
Premissa 2 – Algumas mulheres morrem assassinadas por seus maridos ou namorados.
Logo, todas as mulheres devem andar na companhia de pessoas de confiança (que não sejam, pelo que tudo indica, seus maridos ou namorados).

Premissa 1 – Todas as conclusões acima são machistas e culpam a vítima.
Premissa 2 – O Governador de Pernambuco endossa as conclusões acima.
Logo, ____________________________________

*Essa crônica foi inspirada na declaração  do Governador de Pernambuco, Paulo Câmara, sobre a violência e o aumento dos casos de estupro. Paulo reforça as orientações da PM que pede cautela as mulheres, sugere que elas bebam menos e evitem exposição em redes sociais.

Paulo quem?

Se as paredes têm ouvidos, seria ao menos justo, que as ruas tivessem boca. Elas, as testemunhas da história da cidade, reais observadoras do passado e presente, espectadoras da vida na pólis.

Pois foram justamente elas, as ruas, que primeiro perguntaram:

- Paulo quem?

Nunca se ouviu falar nele.

O povo, desavisado, imaginou ser o compositor de mais um frevo canção, o presidente de algum bloco, o porta estandarte da troça. No meio do reboliço da orquestra de frevo alguém gritou lá da folia: é o candidato ao governo.

As ruas sacudiram as serpentinas e copos plásticos deixados no chão, limparam o confete dos olhos e repetiram:

- Paulo quem?

O candidato #chatiado porque ninguém conhecia sua história política disse apenas: sou amigo do cara.

E assim Paulo abriu alas, fazendo cosplay de Geraldo Júlio, em mais um episódio de: vão fazer a gente de besta.

As ruas não sabiam o que pensar.

A Rua da Saudade, muito da nostálgica, lembrou da época que Pernambuco tinha história política. A Avenida Norte, coitada, ficou sem Norte.

- Mas ele é mesmo político?

Sim e não. No curriculum nem eleição a síndico de prédio, no sorriso amarelo um suspiro de “quem me botou aqui vai me pagar”. Enquanto isso, o wannabe presidente, coronel de engenho, dono das terras e mentes da província, segue seu rumo.

Ah, disso as ruas lembram bem. Desde antes do asfalto, antes mesmo do paralelepípedo, em ruas de barro e chão de poeira, desde lá elas conhecem o chicote do poder.

- Isso não é novidade não, meu filho, disse a rua das Pernambucanas. Vem de longe, antes do Sol nascer na Rua do Sol e antes mesmo que isso tudo vire discórdia, a Rua da Concórdia adverte que é Carnaval e que, perdidos na Rua Imperial, a espera do Galo da Madrugada, o povo quer mesmo coroar o próximo rei do Império Pernambucano.

- “Política é saber a hora de puxar o gatilho”, disse Eduardo Campos.

Não, não, quem disse isso foi Vito Corleone no Poderoso Chefão, mas tanto faz, né?

Ah, se as ruas tivessem boca.

*Para quem não é de Pernambuco: Paulo Câmara é o candidato, pelo partido do atual governador  Eduardo Campos,ao Governo do Estado . Paulo quem? você se pergunta. A gente ainda não sabe, mas assim que descobrir, eu conto aqui.